Relato QUARTO ENCONTRO - finalização do projeto

 JÁ TREME TERRA GUARANI

Finalização do projeto Teias Jovens - FONAJUVES

Juventude Ayahuasqueira da Porta do Sol – JÁ

São Paulo, 20 de agosto de 2012



            Chegamos ao fim deste Projeto de intercâmbio cultural JÁ TREME TERRA GUARANI entre a Juventude Ayahuasqueira da Porta do Sol – JÁ, o grupo jovem de cultura Afro-brasileira TREME TERRA e a aldeia indígena Guarani Tenondé Porã, no bairro de Parelheiros da cidade de São Paulo, contemplados pelo Edital Teias Jovens – FONAJUVES 2012.
            Realizamos cinco encontros com os indígenas na aldeia Tenondé. O primeiro foi um acordo diplomático entre a coordenação do JÁ e a liderança feminina da aldeia, Jerá Guarani, para a viabilização deste projeto. No segundo encontro o JÁ e o Treme Terra passaram uma tarde na aldeia aprendendo a tecer cestos com palhas de bambus, ouvindo histórias tradicionais Guarani e sobre a atual situação da aldeia, comendo bolinhos preparados pelas avós Guaranis no fogão à lenha comunitário da aldeia. A terceira visita foi noturna, onde fomos convidados a participar de uma cerimônia espiritual dentro da Opã – casa de reza; cantamos e dançamos por seis horas em um ritual milenar Guarani. Em retribuição às músicas e danças que eles nos ofertaram, no encontro seguinte, quarta visita na aldeia, o JÁ e o Treme Terra também apresentaram seus cantos e suas danças para o povo Guarani, depois de comer uma galinhada na panela preparada pela Jerá. O quinto e último encontro na aldeia foi ontem, um domingo ensolarado onde Jerá, Claudio e Osmar (professores da escola indígena da aldeia) nos receberam em suas casas e comemos juntos alguns frangos assados que levamos, desfrutando da culinária brasileira em um almoço coletivo que aproximou ainda mais os três grupos de jovens: o JÁ, o Treme Terra e os Guarani.
            Finalizamos este projeto com uma boa mistura das culturas brasileiras e com um pouco do que vivemos em cada um dos encontros. Como já é de costume toda vez que visitamos a aldeia, presenteamos Jerá com Erva Mate e Tabaco, ervas sagradas consumidas permanentemente pelos Guaranis. Depois do almoço com mais de vinte e cinco pessoas, Jerá nos convidou para conhecer seu berçário de mudas de palmito Jussara (atualmente ameaçado de extinção) que ela mantém atrás de sua casa, com ajuda dos jovens estudantes da escola local que dirige e é professora. Todos nós fomos presenteados com uma muda de Jussara que Jerá nos deu para plantarmos e ajudarmos a preservá-lo. Em seguida fomos cantar, dançar e conversar ao pé das árvores perto do campo de futebol da aldeia. Pudemos comprar alguns artesanatos (uma das poucas fontes de renda da aldeia) e assistir o jogo de futebol de domingo.
Espontaneamente se estabeleceu uma roda de improvisação musical com a rabeca e o violão dos Guaranis, o berimbau, pandeiro, sanfona e flauta do JÁ e os tambores, caxixis e agogôs do Treme Terra. Os Guaranis cantaram seus cantos sagrados a Yamandú e ensinaram os passos das danças femininas e as masculinas para nosso grupo. Foi muito emocionante essa boa mistura.
Jerá sugeriu uma roda maior no campo de futebol durante o intervalo do jogo e assim fizemos um divertido jogo de capoeira, com a especial participação das crianças Guaranis.
Encerramos com uma roda de depoimentos onde todos os participantes registraram suas percepções e agradeceram a oportunidade de viver essa aproximação com as diversidades da cultura brasileira. Esse projeto possibilitou estreitarmos os afetos entre os jovens urbanos e os Guaranis paulistanos e exercitar na prática o respeito às diferenças e ao desconhecido, sem necessariamente “tolerar” o outro, mas assegurar o direito inalienável de viver conforme as próprias tradições.
A maioria dos participantes não conhecia uma aldeia indígena, sequer sabia que existiam aldeias de índios no território da cidade de São Paulo. As escolas onde estudam, definitivamente não estão interessadas em apresentar essas realidades para seus estudantes, estão focadas em preparar candidatos para o vestibular...
É preciso reescrever a história. Enquanto as velhas mentiras forem contadas como verdades aos novos, continuaremos a viver sob as ilusões massacrantes. Para que a nossa Nação seja melhor no futuro é necessário viver a transformação já.
Os diversos povos indígenas do Brasil são guardiões de sabedorias ancestrais e saber ouvi-los demonstra nossa sabedoria. Já se foi o tempo em que o colonizador “doutrinava” os “gentis”, agora o Novo Tempo quer a co-criação entre os povos. E o Brasil é privilegiado porque nossa terra acolhe inumeráveis tradições desde os tempos mais remotos, sempre tivemos diversos povos vivendo por aqui e a miscigenação sempre aconteceu neste território do planeta. O silêncio e a mente tranquila dos Guaranis podem contribuir com o Ser-urbano contemporâneo. O tempo da natureza pulsa conforme o coração, não na frequência da mente acelerada e confusa. A juventude que deseja construir um novo mundo pode aprender bastante com as populações indígenas tradicionais e não mais reproduzir os padrões de enfrentamento entre os povos e o desprezo em relação ao outro.
JÁ TREME TERRA GUARANI agradece por podermos contribuir com o fortalecimento da Rede de Movimentos de Juventude no Brasil desta forma, conforme nossos princípios Éticos e nossas ancestralidades, valorizando o que o Brasil tem de mais valioso: suas diferentes culturas.

Com amor e gratidão,
Carlos Henrique Guimarães – coordenador do JÁ.

Relatos TERCEIRO ENCONTRO




É sábado bem cedinho em São Paulo, dia 07 de julho de 2012, e nós, jovens do JÁ e do Treme Terra, encontramo-nos, com muita alegria e entusiasmo, para partir rumo à aldeia indígena Tenondé Porã, para mais um encontro de troca com o povo Guarani. Duas horas de viagem para chegar ao nosso destino, partimos de uma área urbana e central da cidade até uma área periférica e incrivelmente localizada na boca da mata atlântica litorânea, uma viagem de observar muitas cidades dentro desta nossa cidade São Paulo!


A chegada à aldeia é sempre cautelosa, gostamos de abrir os caminhos devagar, devagarinho; acredito que desde o início do projeto temos como importância deste intercâmbio cultural mostrar aos Gauarani que temos respeito a seu povo e sua cultura. Estar em contato com este povo, guardião de um saber ancestral há milênios, é o real intercâmbio cultural que podíamos almejar. Percebi que as atividades propostas no projeto são somente ferramentas para que isso aconteça, para que o real intercâmbio, feito de presença para compreender e vivenciar o outro, seja gerador de um encontro efetivo.


O momento mais precioso deste dia para mim, foi se aproximar da casa de Jera, grande representante do povo Guarani, a que possa chamar de nossa amiga, em que fomos guiados por crianças, que entre terra, árvores e lago realizavam o caminho de forma lúdica e livre: subir em galhos, pular barrancos e saltar com o corpo livre, sem medo e sem dúvida. Jera nos recebeu re-conhecendo, com certo cuidado para verificar quem éramos, mas sempre muito receptiva, abrindo sua casa como se estivéssemos ali já de longa data. Uma galinhada estava sendo preparada no fogo e o silêncio imperava naquela varanda, os Guarani sentados ao fogo conversavam entre eles de forma telepática, era uma leveza e limpeza no lugar. Eu, Carolina e Leonardo fomos os primeiros do grupo a chegar à casa, e pudemos compartilhar o silêncio sentados em frente a panela que cozinhava a galinhada, contemplando a comunicação Guarani, assistindo os pequenos gestos que mexiam o fogo, sentindo as palavras soltas que ora nos atravessava. Naquele momento, em que minha respiração se acalmou e sentiu o tempo daquele povo, compreendi que o mais precioso deste intercâmbio cultural são esses detalhes do convívio. É o cheiro que tem aquele lugar, é a maneira como aquela índia pegou o tacho para ascender seu petanguá, o modo que aquele índio sentou ao pé da porta, a história dos ancestrais que se houve em uma conversa cotidiana, o olhar atento daquela criança, o tom da voz daquela senhora, o artesanato pendurado na parede, o silêncio compartilhado sem medo de silenciar... São esses momentos, de muito silêncio, que me fazem compreender, ao menos um pouco, como é o imaginário cultural deste povo e, portanto, são esses momentos que fazem com que eu permeie, ao menos um pouco, seus mundos, um modo sutil e eficaz de fortalecer-nos, enquanto redes jovens, enquanto grupos culturais desta cidade, enquanto seres humanos.


Em silêncio,
Lilian Ganzerla Cardoso (Coordenadora da Frente de Política do JÁ)




 Sábado, 07 de julho de 2012, estivemos novamente na aldeia guarani Tenondé Porã em Parelheiros, para o terceiro encontro do projeto Pra Tremer a Terra JÁ.
Estiveram presentes: Ronaldo, Luciano, Juliana e Tainá, integrantes do Grupo Treme Terra, Antônio que integra o Treme Terra e o JÁ e, Carolina Nagayoshi, Lilian Cardoso, Rafael Camargo, Thiago França, Débora Sanders, Maitê Freitas e eu, representando o JÁ - Juventude Ayahuasqueira da Porta do Sol.
Ao chegarmos, a primeira pessoa que encontramos foi nosso amigo Paulinho Karaí, irmão da Jerá, que nos encaminhou para falarmos com ela. Jerá nos recebeu muito bem em sua casa, e nos convidou para almoçar. O prato do dia era galinhada, um prato feito de arroz e frango, muito conhecido no interior do Brasil. Compartilhamos também as coisas que tínhamos levado e, comemos e conversamos de forma descontraída, estreitando os laços, nos conhecendo melhor uns aos outros.
Depois do almoço fomos para o campo de futebol onde estava acontecendo uma partida e Jerá nos contou um pouco sobre o povo guarani, a história da aldeia e compartilhamos impressões. Em seguida cantamos alguns de nossos cantos em forma de agradecimento e em retribuição por sermos sempre tão bem recebidos, e também porque, como no encontro anterior participamos do rito na Casa de Reza, ficou combinado que no próximo nós cantaríamos alguns de nossos cantos sagrados. Finalizamos com música e dança com a participação da própria Jerá.
O povo guarani é muito acolhedor, recebe muito bem os visitantes, e neste encontro se evidenciou o quanto a cultura deste povo permanece e resiste. Pois se, por um lado, não podemos nos ater a uma visão romântica e idealizada sobre o povo indígena, uma vez que não pararam no tempo, e o contato com outros povos influenciou e influencia sim a sua cultura; por outro, características muito fortes permanecem firmes. E alguém que tenha a oportunidade de se aproximar mais, enxerga sutilezas que revelam a força e a presença de uma cultura ancestral que permanece viva.
No geral, são pessoas muito atentas, observadoras, silenciosas, nem por isso, menos alegres. Entretanto, estas características propiciam entre elas uma comunicação quase que sem a necessidade de palavras, pelo olhar, pelo gesto, pelo pensamento, valorizando inclusive, a própria palavra quando esta se apresenta. Isso tudo proporciona uma atmosfera de serenidade e, têm-se a impressão de que até o tempo transcorre de forma diferente.
Um dos aprendizados proporcionados especificamente por este encontro, foi o de que as coisas são o que são.
Combinamos com a Jerá para que ela nos contasse sobre a aldeia e o povo guarani, então aguardamos um tempo até as coisas a nossa volta se acalmarem e o ambiente se tornar propício. Percebemos que poderíamos ficar ali infinitamente, sem que ela dissesse uma única palavra no sentido de compartilhar o que havíamos combinado, até que as condições fossem favoráveis, pois a lógica é outra. Não existe a rigidez de que só porque algo foi “marcado” tem que acontecer naquele horário, mas existe a disciplina, a postura, a conduta; se de fato os envolvidos querem que determinada coisa se dê, então... a disciplina em instaurá-la, então... ela é. Uma diferença sutil, mas ao mesmo tempo, muito grande.

Agradecemos a todos que nos tem proporcionado essa experiência, ao Teia Jovens, à Porta do Sol e à aldeia Tenondé Porá que se disponibilizou e se abriu para o encontro de forma tão generosa.


Leonardo Mussi (Conselheiro do JÁ)

Balanço da participação da Porta do Sol na Rio+20

Aos 21 de junho de 2012, encerramos a participação da Porta do Sol na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 e a Cúpula dos Povos, organizados pela ONU e pelo Comitê Facilitador Nacional para a Rio+20 (respectivamente) na cidade do Rio de Janeiro – RJ, , depois de 20 anos da ECO 92 (Fórum Mundial que discutiu questões sociais e do meio ambiente); agora, líderes políticos de todo o mundo, a iniciativa privada e a sociedade civil retornam para refletir e reelaborar os planos de desenvolvimento com respeito à natureza, integrando o ser humano ao ecossistema.

SEMINÁRIO INTERNACIONAL DESCONTRUINDO A CRISE CIVILIZACIONAL: UM OLHAR SOBRE A RIO+20
A primeira participação da Porta do Sol foi de nossa dirigente central, Ana Vitória, onde integrou uma mesa de diferentes lideranças religiosas, em um Seminário Internacional realizado no Ministério Público Federal, em São Paulo, a convite de Vilázio Junior, falando sobre como a cultura xamânica ayahuasqueira pode contribuir para a construção de novos paradigmas éticos.
(mais informações clique aqui)

YOUTH BLAST
Nossa segunda participação foi com representante do JÁ na Youth Blast, a Conferência Internacional de Jovens para a Rio+20, na cidade do Rio de Janeiro, no debate com outras lideranças jovens e representantes do Instituto Chico Mendes, em parceria com o Movimento Fora do Eixo. Falamos sobre o comprometimento da juventude em construir novas políticas públicas e da consequência das políticas atuais para as gerações futuras (exemplo do Novo Código Florestal e da Usina Hidroelétrica de Belo Monte).

Henrique Guimarães, coordenador do JÁ, e Natalia Guindane, participante do JÁ do Rio de Janeiro, na Youth Blast

MOSTRA DE VÍDEOS DO FORA DO EIXO
A terceira intervenção da Porta do Sol foi através do Bentivídeo com a exibição do vídeo O Nascimento do JÁ, Trilha da Terra Sem Males, JÁ na Moravia e o Manifesto do JÁ, selecionados pela curadoria da Mostra de Vídeos Fora do Eixo, no Planetário, também na cidade do Rio. Tivemos depoimentos públicos em outros sites bastante significativos, da plateia ter saído bastante tocada no sentido de refletir sobre o comprometimento com a auto transformação para a transformação do mundo.

RODA XAMANICA NA CÚPULA DOS POVOS
No dia 19 às 19h, o JÁ e o sub Núcleo Política e Relações Públicas da Porta do Sol, organizaram uma Roda de Ética dentro da Cúpula dos Povos no Aterro do Flamengo – RJ, onde estiveram presentes representantes da Porta do Sol e interessados que integraram nossa roda para refletir sobre os princípios Éticos do Xamanismo: o diálogo, a pró-atividade construtiva, a reintegração homem-natureza, a não oposição e sim cooperação, o trabalho em rede, a liberdade, a auto cura e a colaboração da Porta do Sol nesse momento de construir novos paradigmas para um mundo melhor, mais comprometido com as gerações presentes e as futuras, de aprender com nossos povos ancestrais para não precisar inventar a roda, mas aplicar a sabedoria milenar daqueles que zelam por essa Terra em harmonia completa com a natureza, do homem integrado ao ecossistema, não o homem subjugando e dominando os recursos naturais, segundo os paradigmas clássicos da Cultura X Natureza. Recebemos nessa Roda a visita de Felipe Altenfelder (Fora do Eixo) e da Profª Drª Ivana Bentes (diretora da Faculdade de Comunicação da UFRJ), que se encantaram pelo nosso trabalho. Todos os presentes contribuíram com suas falas e com violão, tambor e maracá, cantamos dois hinos do Mestre Irineu (Fortaleza e Flor de Jagube) e cinco da Porta do Sol (Saudação, Lua, Canto de Cura, Força chegou). Foi muito rica essa reflexão.

 Representantes do JÁ e do Núcleo de Política e Relações Públicas da Porta do Sol com convidados, entre eles, Felipe Altenfelder e Ivana Bentes, após a Roda Xamanica de Ética.

MESA SOBRE RESGATE DE MEDICINAS ANCESTRAIS E A CONVERGÊNCIA ENTRE CIÊNCIA E RELIGIÃO
No dia 21, contamos com a participação do Dr. Flávio Falcone, representando o Núcleo Saúde da Porta do Sol na mesa organizada pelo psiquiatra Dr. Felipe Bandeira e dirigente do grupo ayahuasqueiro Arca da Montanha Azul (RJ) que também compôs a mesa, ao lado do também médico psiquiatra e dirigente ayahuasqueiro Dr. Paulo Urban, do grupo Psicoterapia do Encantamento e da Mãe Fátima, Babalorixá da Umbanda, discutindo o tema do uso terapêutico da ayahuasca e das ervas tradicionais da Umbanda e Candomblé brasileiros e o encontro das medicinas tradicionais (xamânicas, gregas, taoistas, umbandistas, entre outras) com a medicina acadêmica contemporânea. Falaram das diferenças entre enteógeno e alucinógeno, entre planta mestra de poder e drogas, entre dependência e transcendência. Salientaram que toda Cura é divina e espiritual e que para curar o mundo é preciso curar-se a si mesmo. Flavio reforçou que o Amor é a chave de toda cura no contato com Deus e lembrou do Mestre Irineu como responsável por socializar o conhecimento, a cura e o poder; falou também da importância dos rituais no uso da ayahuasca para garantir que o sujeito retorne com segurança do mergulho em seu inconsciente. A reflexão final desta mesa foi a respeito da união dos povos, em especial das linhas espirituais, superando as diferenças para atingir um objetivo comum que é o desenvolvimento comum do Ser Humano.

Assim encerramos a participação da Porta do Sol na Rio+20 dentro da Cúpula dos Povos organizada em parceria com a sociedade civil, em junho de 2012, importante Fórum para a construção de um mundo melhor.
Com amor e gratidão pela belíssima oportunidade,
Carlos Henrique Guimarães – coordenador geral do JÁ.

JÁ no I Encontro Teias Jovens

 na foto: representantes dos grupos juvenis contemplados pelo Edital Teias Jovens e os organizadores do FONAJUVES - Marjorie Botelho, Renata Bhering, Claudio e Gabriel Medina.

Acaba de finalizar o encontro dos grupos contemplados pelo Edital TEIAS JOVENS - FONAJUVES, que aconteceu no Ponto de Cultura Rural - Sto Antonio, município de BomJardim/RJ, um lugar realmente lindo na área serrana do estado do Rio de Janeiro.

O JÁ sai do encontro muito feliz e satisfeito com esta troca. Oito coletivos juvenis, de quatro estados diferentes (ES, MG, RJ, SP) ficaram em imersão, durante três dias, para discutir políticas públicas ligadas a juventude. Além de que os grupos puderam conhecer os projetos desenvolvidos de cada entidade participante.

O JÁ se apresentou mostrando o vídeo Ayahuasca A Força da Floresta - material fruto do I Encontro Cultural da Diversidade Ayahuasqueira, falou-se da Porta do Sol - Centro de Estudos Xamâicos de Expansão da Consciência, das atividades que o JÁ desenvolve e lançou-se oficialmente este blog, fruto dos trabalho desenvolvido com a aldeia Tenondé Porã.

O encontro foi um de muitos outros que com certeza virão. Afinal, estamos todos conectados por esta REDE.


 na foto: Henrique Guimarães, Carolina Nagayoshi, Rafael Lemos e Lilian Cardoso rumo a Nova Friburgo-RJ

Veja mais fotos do evento:
 





FONAJUVES

O JÁ está agora na região serrana do estado do RJ com mais o6 grupos jovens contemplados no edital TEIAS JOVENS, para o Fórum Nacional de Movimentos e Organizações Juvenis - FONAJUVES.

O encontro acontecerá em 28, 29 e 30 de abril no Ponto de Cultura Rural Imagem e Cidadania, no vilarejo de SANTO ANTONIO-Boa Esperança, município de Bom Jardim.

Jovens de vários estados estão reunidos trocando experiências de suas organizações e atividades.

é PRA TREMER A TERRA JÁ!

Relato SEGUNDO ENCONTRO

PRA TREMER A TERRA JÁ!

 Segunda visita dos grupos JÁ e TREME TERRA na aldeia Guarani Tenondé Porã de Parelheiros, cidade de São Paulo, dentro do Projeto TEIAS JOVENS.


Dia 10 de abril de 2012, às 18h30, eu, Juliana Schalch, Rafael Lemos, Carolina Nagayoshi, Giulliano, Ronaldo, Adonai, Thiago Freitas, Lilian Cardoso e Leonardo Mussi, chegamos em dois carros e uma moto para o segundo encontro de intercâmbio cultural na aldeia Guarani Tenondé Porã, depois de mais de duas horas dirigindo para chegar no local. Impressionantemente dentro dos limites da cidade de São Paulo, Parelheiros é uma região rural, onde o centro do bairro parece uma cidade do interior de São Paulo, com um coreto, uma pracinha, uma igreja e o comércio local. Na direção da aldeia, passamos por sítios com cavalos, vacas, plantações, lagoas... e isso ainda é dentro da metrópole São Paulo, cidade com absurda variedade de povos, culturas, vegetação, clima, enfim, nossa cidade com todas as contradições inerentes.
A Juventude Ayahuasqueira do Centro de Estudos Xamânicos da Expansão da Consciencia Porta do Sol – JÁ, se propôs a conhecer um pouco mais da cidade de São Paulo e ampliar a rede de contato com essas culturas diversas de nossa cidade. Quando decidimos realizar este Projeto PRA TREMER A TERRA JÁ! junto ao Grupo de percussão e cultura afro-brasileira TREME TERRA com uma comunidade indígena Guarani, foi para diminuir os preconceitos, as distâncias e o esquecimento entre esses grupos.
Como bem nos lembrou o Prof. Claudio, Guarani que dá aulas de Artes e Educação Física e é um dos líderes jovens da aldeia Tenondé Porã, o Brasil tem hoje em torno de 220 povos indígenas diferentes, com uma variação de 180 línguas, fazendo do Brasil o país onde existe a maior diversidade de línguas do mundo, mais do que na Índia e China! Quando os europeus chegaram aqui nesta terra e dizimaram milhões de seres humanos indígenas, passavam de 1000 povos originários destas terras. Quase 800 etnias foram extintas em 512 anos.
A aproximação com estes indígenas Guarani que moram na mesma cidade que nossos grupos é quase um dever de responsabilidade social e cultural. Tanto o JÁ quanto o TREME TERRA são grupos que estudam culturas populares do Brasil, o JÁ pelo viés do xamanismo e o TREME TERRA pela música e dança. Como resistentes ao massacre promovido oficialmente por nossos antigos colonizadores, os Guarani são aqueles fortes que sobreviveram e mantiveram sua cultura presente na formação do povo brasileiro, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.
Chimarrão quente ou o Tererê gelado, costumes muito presentes no Sul e Sudeste do Brasil, símbolo dos gaúchos dos Pampas, é de origem Guarani, dos índios que ainda vivem nessas regiões e ensinaram aos europeus esse antigo costume de utilização ritualística da erva mate, que é sagrada para os Guarani, assim como o tabaco (outro costume de origem Guarani), pitado por crianças, jovens, adultos e velhos de forma sagrada, sem tragar a fumaça, apenas fazendo com que o tabaco defume a aura espiritual do indivíduo e do local, chamando os bons espíritos e afastando os indesejados, conforme tradição xamânica do povo Guarani.
Nossos grupos foram recebidos dentro da Grande Opã, a Casa de Reza dos Guarani, para participarmos da cerimônia que realizam todas as noites. Levamos pacotes da erva mate para fazer chimarrão e tabaco para o petanguá – o cachimbo Guarani. Ali já se encontravam as mães das crianças preparando esteiras de palhas e folhas cobertas por mantas, onde todos se acomodavam confortavelmente em torno de uma pequena fogueira, esquentando o local como uma lareira. Nesse fogo a água para o chimarrão era fervida e saíam as brasas para acender o petanguá.
O Tiramoãe (um tipo de Pajé Curandeiro que não é feiticeiro) Sebastião, um dos líderes espirituais e médico da aldeia, nos recebeu dentro da Opã e nos deixou bastante à vontade; entregamos o tabaco a ele e ao pedirmos autorização para registro em foto e vídeo, ele não deixou, pois é proibido o registro de imagens dentro da Opã, principalmente durante os rituais.
As crianças abriram o rito da noite cantando e dançando por mais de uma hora. São muito resistentes. Melodias muito afinadas, com notas repetitivas e simples, entoadas a noite inteira, provocando um transe coletivo, ou seja, um estado meditativo, elevando a frequência cerebral de ondas Beta à Alfa, saindo do estado cotidiano profano para o sagrado ritualizado.
As meninas formavam uma fila em frente à fila dos meninos. Era um responsório musical, ora elas perguntavam e os garotos respondiam, ora o contrário. Havia uma banda masculina com um violão, um maracá e um violino-rabeca que os índios tocavam; Adonai (um dos representantes do Treme Terra que também participa do JÁ) e Thiago (do JÁ) com tambores Djembés e Leonardo (Porta do Sol) com seu maracá, acompanharam a banda do ritual indígena autorizado pelo Tiramoãe Sebastião, concretizando o objetivo da noite – um intercâmbio musical. Como a noite toda foi um grande ritual, Sebastião e Jerá (nossa interlocutora, professora da escola Guarani e líder feminina jovem da aldeia) pediram para que oferecêssemos nossas músicas em outro dia. Combinamos de levar alguns Guarani para nossa Opã em Mairinque, a sede da Porta do Sol Central para apresentar nossas músicas a eles.
Generosamente fomos convidados a participar deste ritual Guarani e conhecer um pouco mais da cultura deste povo brasileiro ancestral. Um ritual de Cura nesta noite. Alguns adolescentes estavam com algumas doenças espirituais e o Tiramoãe (Xamã) Sebastião e sua esposa, “trabalharam” para curá-los, com muita defumação, passes, cantos, danças, vibrações e alegrias. Dividimos a intimidade espiritual daquele grupo indígena, uma vez que participamos na condição de assistência, vibrando, cantando, tocando, dançando com o objetivo de elevar o padrão de vibração de todos, visando a cura espiritual de todos.
Lembrei muito da forma ritualística da Umbanda. Tive a impressão de estar nos primórdios dos ritos desta religião sincrética brasileira. Em determinados momentos, alguns “médiuns” aplicavam passes cantando, defumando e dançando em torno dos adolescentes que estavam no processo iniciático de cura. Os outros índios, inclusive nosso grupo, estávamos como na corrente da assistência espiritual, enquanto o xamã Sebastião e seus companheiros realizavam o trabalho de cura espiritual.
Conversando com outros índios nesta noite, eles contaram que esse trabalho de cura espiritual é constante na aldeia e que o xamã está sempre disponível e é sempre consultado, mesmo antes de consultarem os médicos do posto de saúde da aldeia, para curar as doenças que acreditam sempre começar no plano espiritual.
Após o ritual de cura, o xamã Sebastião e sua senhora se retiraram e o Profº Claudio deu continuidade nas atividades da noite. Ao todo ficamos em torno de seis horas dentro da Casa de Reza, cantando, dançando, pitando o tabaco, bebendo mate no chimarrão; essa é a essencial do culto espiritual Guarani, e o JÁ e o TREME TERRA tiveram a honra de participar na aldeia Tenondé Porã.
Claudio conduziu uma série de outros cantos, danças e jogos de luta entre os garotos e de exaustão para a cura das garotas (onde os garotos auxiliavam as meninas até a exaustão delas). Os rapazes de nosso grupo foram convidados a participarem do treinamento de guerreiro deles, em caráter de apresentação do que são seus treinos de defesa e caça.
Este ritual foi especialmente dedicado à cura das garotas adolescentes da aldeia.
No final, Claudio fez uma grande explanação em Guarani para todos e depois falou em português para nós, que estávamos em dez pessoas. Disse que para a aldeia era uma satisfação nos receber e agradeceu nosso interesse,  e a oportunidade de transmitir a cultura Guarani que é de muita resistência e bravura, sendo esses os principais motivos de sua existência até hoje, tendo passado por todo o período de enorme desafio durante a colonização do Brasil, onde adotaram muito estrategicamente a política da boa vizinhança em toda região sudeste e sul do país.
Eu agradeci também, em nome da Porta do Sol, do JÁ e do Treme Terra, a oportunidade de vivenciar essa experiência rara entre os jovens de nossos grupos que se dedicam a estudar profundamente a cultura brasileira. Outros JÁs também agradeceram e deram seus depoimentos. Foi de muita riqueza cultural, social e espiritual esta noite dentro da Opã Guarani de Tenondé Porã.
Claudio reforçou o convite para fazermos novas visitas e participarmos do batismo Guarani provavelmente em agosto. Em seguida fizemos um grande lanche coletivo, contando piadas, dando muita risada e planejando novos encontros.
Agradecemos à Jera, ao Claudio, ao Paulinho e ao Tiramoãe Sebastião, e às suas famílias, toda generosidade em compartilhar suas sabedorias no exercício da tradição Guarani, nos acolhendo como membros da aldeia.

Carlos Henrique Guimarães
Um dos coordenadores do JÁ e um dos proponentes deste projeto

Relato PRIMEIRO ENCONTRO

PRA TREMER A TERRA JÁ!

Primeira visita do JÁ e do TREME TERRA à aldeia guarani Tenondé Porã, em Parelheiros, na cidade de São Paulo, em atividade de intercâmbio cultural do projeto PRA TREMER A TERRA JÁ, contemplado pelo Edital TEIAS JOVENS.

Visitamos a aldeia em nove pessoas, sete representantes do JÁ (Henrique Guimarães, Juliana Schalch, Rafael Lemos, Carolina Nagayoshi, Rafael Camargo, Lilian Cardoso e, o Conselheiro do JÁ, Leonardo Mussi) e mais dois representantes do TREME TERRA (Ronaldo e Adonai, que também é do JÁ).
Para essa visita tivemos o apoio da subprefeitura de Parelheiros que nos disponibilizou um transporte de van da estação de trem Grajaú até a aldeia e o retorno também. Essa colaboração com nosso projeto se deu através do Wagner da subprefeitura de Parelheiros e da Lucia Belenzani, nossa parceira da subprefeitura do Butantã que indicou o contato do Wagner. Registro aqui nosso agradecimento por essa parceria. Faremos uma reunião com Wagner que nos convidou para tratarmos de próximas parcerias.
Marcamos como ponto de encontro a catraca da estação de trem Grajaú, ultima parada desta linha, ao meio dia. Quando todos chegaram fomos encontrar o Toninho, motorista da van, para partirmos em direção à aldeia que fica na área rural de Parelheiros, impressionantemente dentro da cidade de São Paulo. Da estação de trem até a aldeia foram 50 minutos, sem contar a meia hora de almoço que fizemos num restaurante bem gostoso de comida caseira, no centro de Parelheiros, onde gastamos R$ 85,00 pra oito pessoas.
Chegamos à aldeia por volta das 14h. Toninho, o motorista, esperou que a gente conversasse com algum guarani pra ver se estava tudo certo. Falei com Germano, um guardião da aldeia que estava sentado em frente à escola e perguntei sobre a Jerá, nossa anfitriã, vice-diretora da escola municipal, professora e líder jovem da aldeia. Germano disse para o grupo descer que estavam por lá nos esperando. Depois de falar com Germano, avisei o motorista Toninho que estava tudo bem e ele riu, porque havia me alertado que já furaram com ele algumas vezes, de marcar e não aparecer ninguém...
Fomos ao lugar onde alguns índios estavam. No caminho conversamos com a pequena Dara, que viemos a saber depois, ser peruana e que está na aldeia há poucos anos, com sua família que se mudou para São Paulo; Dara nos indicou o caminho. Chegamos de mochilas, celulares, câmeras, mas discretamente...
Ao encontrarmos o grupo de índios que estavam trabalhando com taquara, cumprimentamos e eles riram muito. Claudio Clayve, professor de artes e educação física da escola, nos acolheu e convidou o grupo a se sentar com eles e participar da oficina de confecção de cestos com a palha do bambu. Sentamos e começamos a raspar as taquaras, desfiar as varetas até obter a palha certa pra montar os cestos. Dali em diante, Claudio foi puxando um assunto ou outro até perguntar o que estávamos fazendo ali. Eu falei que começávamos um intercâmbio entre nossos grupos jovens com os guaranis da aldeia e ele gostou. Claudio aproveitou o ensejo pra falar sobre a atual situação da aldeia, que não possui terra suficiente pra plantar, caçar, migrar, enfim, que não podem exercer sua cultura plenamente devido às limitações. Comentou sobre a batalha do Cacique Timoteo na FUNAI para conquistarem mais terras e de fortalecer a cultura guarani.
De grão em grão a conversa cresceu. Dali a pouco, Claudio seguiu falando mais sobre a cultura guarani e comentou sobre sua espiritualidade. Estávamos em frente à Casa de Reza da aldeia, local que ninguém entra sem ser convidado e, como o papo estava bom, ele nos convidou a entrar no espaço sagrado da aldeia. Apresentou seus instrumentos de poder usados pelos Pajés Tiramães (médicos guaranis). Ele deixou apenas os homens tocarem em alguns instrumentos e apenas as mulheres em outros. Mostrou o altar feito com um cocar de muitas penas representando o sol e alguns maracás usados pelos Pajés em seus rituais no final do dia. Disse que na aldeia existem cinco pajés, quatro homens e uma mulher e que qualquer questão de saúde, primeiro é tratada com os pajés, depois com os médicos do posto de saúde que fica dentro da aldeia.
Seguimos tirando as palhas e montando as cestas. Encontramos com outro grupo visitante ILE ASE HOZOOUANE de Candomblé Angola de Obaluaiê, onde nosso conhecido Pedro Alfazema estava participando, com um projeto de aproximação entre jovens da cultura afro-brasileira e os jovens guaranis. Trocamos contatos e fortalecemos a rede.
Gravamos pequenos vídeos, tiramos fotos, conversamos bastante, demos muitas risadas e tomamos um cafezinho doce feito no fogão à lenha com um bolinho de farinha de trigo, tchiapã, parecido com nosso bolinho de chuva, preparados e fritos na hora pelas velhas índias guaranis que estavam ensinando o grupo a fazer os cestos de palha.
Na hora do café chegou nosso antigo amigo, Paulinho Karaí, que conduziu o JÁ em 2007 nas duas primeiras caminhadas que fizemos com ele na TRILHA DA TERRA SEM MALES, descendo a Serra do Mar, de Parelheiros até Itanhaém, em um sistema milenar de caminhos pela floresta que liga as aldeias guaranis Tenondé Porã e Rio Branco, no pé da Serra. Foi um reencontro bem animado! Paulinho presenteou o JÁ com uma escultura em madeira feita por ele: uma Águia, que segundo ele, simboliza a perseverança e a vitória, ave que vai até a mais alta montanha quando está velha, para retirar suas penas, quebrar suas unhas e seu bico e renascer, nova em folha. Jerá, irmã de Paulinho Karaí, não pode aparecer devido uma questão urgente que surgiu, mas cumpriu com sua palavra ao preparar nossa chegada à aldeia para visitar seu grupo.
A questão TEMPO foi a que mais me chamou a atenção. A aldeia vive em outro tempo, bem diferente do nosso. Nossa programação, enviada ao Edital TEIAS JOVENS, planejava outras atividades neste primeiro dia, mas, depois que Juliana e eu visitamos Jerá com Luciano e Gisele (dois outros Conselheiros do JÁ e responsáveis pela aproximação de nossos grupos com essa aldeia guarani), num outro dia, para estabelecer a parceria com a aldeia para a realização deste projeto; conversamos com os participantes do JÁ e do TREME TERRA sobre a forma de conseguir realizar nossos objetivos, uma vez que aldeia tem sua dinâmica própria, bem diferente da que estamos acostumados em nossa sociedade.
Isso já foi um grande aprendizado, porque na reunião entre JÁ e TREME TERRA para preparar essa primeira visita de intercâmbio entre os grupos, havíamos percebido que não daria pra chegar propondo muita coisa, interferindo no cotidiano deles. O mais interessante pra nós será entrarmos no TEMPO deles, que o aprendizado também virá desta forma, vivendo o cotidiano deles.
Então estamos agora revendo a forma de poder trocar musicalmente com os guarani, de trocar pontos de vista sobre o cinema, a política, a ética e o meio ambiente, conteúdos a que nos propusemos a trabalhar neste projeto PRA TREMER A TERRA JÁ.
Combinamos nossa próxima visita para o dia 10 de abril. Para esse próximo encontro, fomos convidados a pernoitar dentro da aldeia, para participar de suas cantorias noturnas. Acredito que dessa maneira a troca musical será bastante efetiva, cantando junto em um ambiente informal, em roda, na fogueira, assim imagino...
Foi muito especial esse encontro que, para alguns dos nossos grupos, foi o primeiro contato com uma aldeia indígena.
Agradecemos à PORTA DO SOL e ao TEIAS JOVENS por essa oportunidade.



Carlos Henrique Guimarães
Um dos coordenadores do JÁ e um dos proponentes deste projeto









Ata primeiro encontro

Ata dia 20 de março de 2012

Estavam presentes Henrique Guimarães, Juliana Schalch, Carolina Nagayoshi, Leonardo Mussi, Lilian Ganzerla Cardoso, Rafael Lemos e Rafael Camargo como representantes do JÁ e, Adonai Agni Assis e Ronaldo Gonçalves Alves como representantes do Treme Terra.
Local: Aldeia indígena guarani Tenondé Porã 
Conseguimos o apoio da prefeitura de São Paulo e da subprefeitura de Parelheiros, através da Lucia Belenzani (da subprefeitura Butantã) e Lilian Cardoso (representante do JÁ no Conselho da Juventude), para termos transporte gratuito (Van) da Estação Grajaú até a aldeia dos guaranis. Esse apoio evitou despendermos de uma grande parte de nossa verba, que estaria comprometida apenas com transportes.
Falamos muito sobre "saber chegar e saber sair". Henrique ressaltou que deveríamos chegar em “silêncio”, sem chamarmos atenção. Também ressaltou que, embora o projeto seja de caráter social, não é assistencialista, e que isso deve estar tão claro para os indígenas quanto para nós.
Nesse encontro tínhamos como premissa nos aproximar dos guaranis para organizarmos juntos o andamento do projeto. Não sabíamos mesmo como ia ser. Existiam expectativas baseadas no que já havia sido conversado na outra reunião e nas informações que possuíamos.
Foi ressaltado que o plano todo não consiste em simplesmente darmos nossas ideias, nossas influências, nossa cultura e realizarmos eventos na aldeia. O plano é fazer em conjunto. Demos os primeiro passo, de ir até lá e buscar essa aproximação, mas isso não significa dizer que a realização do projeto como um todo será de forma unilateral. Em suma "tocaremos o barco", por termos nos colocado nessa posição de "puxar" o projeto, mas nada será imposto, ou colocado sem que haja conversa com os índios.
Fechamos o cronograma em 6 encontros. O Encontro Zero foi o primeiro contato que tivemos. A segunda visita, de 20/03/2012 (terça-feira), consideramos como o 1° Encontro, onde conversamos sobre os valores sociais, morais e culturais, e fizemos paralelos da vida da comunidade indígena guarani com a sociedade urbanizada. Haverão outros 5, dos quais o 5° e o 6° encontros serão uma espécie de finalização do que foi o projeto. No 5° Encontro faremos algum "movimento" dentro da aldeia, provavelmente um tipo de show ou apresentação. O 6° e último encontro, será em Mairinque onde apresentaremos todo projeto aos Membros da Porta do Sol. Ainda discutiremos e planejaremos o que será feito.
Ao chegarmos à aldeia notamos que houve uma constante "leitura" feita pelos índios em relação a nós, tão logo nos apresentamos e fomos recebidos. Eles se comunicavam em português e ao nos aproximarmos conversavam mais em guarani entre eles. Apesar disso, os índios se mostraram muito amistosos, e nos primeiros momentos já nos incluíram em suas atividades. As mulheres estavam sentadas no chão, em cima de uma espécie de tapete, fazendo "cestinhas" de palhas de bambu; um outro índio estava fazendo chapéu de palha; outros raspando bambu e por fim outros separando a casca do miolo do bambu. Nos juntamos a eles, e eles foram nos ensinando. Conversamos sobre essa experiência em específico, e a Juliana Schalch conseguiu definir em poucas palavras a forma de aprendizado a qual aqueles índios lecionavam: Postura e Telepatia. Em muitos momentos percebemos que estávamos sendo observados. Aqueles olhares investigativos, porém disfarçados, buscavam descobrir em nossas atitudes e palavras qual era nossa "carta de intenções", para que ficasse cada vez mais claro o que estávamos fazendo lá e o que queríamos com eles.
Quem nos recebeu foi o guarani Claudio que dá as oficinas e é também professor de educação física na escola local. É uma pessoa muito comunicativa e receptiva. Demonstrou bom humor com a nossa presença, e nos explicou um pouco sobre a cultura guarani e seus costumes.
A colônia de Parelheiros tem em torno de 1100 índios. Os índios vivem em acomodações não precárias, em casas de alvenaria e possuem eletricidade. Apesar disso reclamam do saneamento básico e ressaltam a escassez da água, bem como sua baixa qualidade.
Sobre a educação nos disse que as crianças de 0 a 6 anos estudam em uma escola específica e aprendem apenas a língua guarani, depois vão para outra escola de ensino médio. Nessa escola há outros professores de fora (não- índios), que lecionam matérias como química, matemática (...), porém essa escola é indígena também, e nela eles tem contato e aprendem o português. Ele disse que foram muitos anos de "luta" para reivindicar uma escola para os índios. Afirmou que por diversas razões, inclusive preconceito, não há condições de índios estudarem com não índios. Além do mais, os guaranis passam a muitos séculos procurando manter sua cultura e tradições. Então, se logo cedo os índios se distanciarem de seus costumes, esses conhecimentos podem ser mais abalados, e por fim, perdidos. Em alguns momentos Claudio dava risada das crianças brincando na aldeia e fazia algumas comparações com os não-índios. Uma das situações foi a de uma criança em cima de uma árvore, e ele disse que se fosse na cidade, os pais estariam brigando, e que na cultura deles você deixa as crianças “soltas”. Inclusive, disse “pode deixá-las a uns 3 km da aldeia, uma hora elas voltam, nunca aconteceu nada.”
Sobre suas crenças, nos apresentou a OCA, que é um lugar sagrado para eles. O que nós do grupo sentimos que foi uma grande abertura, demonstrando um sinal de respeito, pois ele ressaltou: “Essa é nossa OCA, um lugar sagrado para nós.” Ali dentro havia um altar com penas de uma certa ave, fazendo o formato de uma semicircunferência e ele nos explicou que era simbolizando o nascer do Sol. Haviam também alguns instrumentos utilizados nos rituais como a rabeca (espécie de violino), violão (mbaraka), chocalho (baraka mirim), um desses instrumentos é a segunda parte do nome do Claudio. Alguns desses instrumentos sagrados só podem ser tocados por homens. A erva mate para eles é sagrada, e existe um ritual no qual fazem seu batismo. Apresentou o Petyngua espécie de cachimbo artesanal utilizado no cotidiano e em rituais. O uso pode ser feito por crianças, homens, mulheres e dizem que é costume os visitantes chegarem na aldeia e fumarem um pouco, para se “familiarizarem”. Falamos sobre alguns dos rituais, dentre os quais:
- O matrimônio; o batismo (nascimento), em que o Pajé nomeia a criança;
- Ritual de passagem dos homens, jovens que no período de mudança da voz, têm sua boca furada abaixo dos lábios. No furo colocam uma “madeirinha”, isso causa dor nessa região então o jovem passa a falar menos;
- Ritual de passagem para mulheres, na primeira menstruação as meninas ficam em confinamento por certo período;
- Ritual de Restrição Alimentar feito pelos pais. Assim que nasce a criança, ficam em torno de 40 a 60 dias sem comer carnes.
- Ritual de Batismo da Folha do Mate, que é um dos mais importantes;
Entre outros rituais.
Os guaranis são abertos a visitação e acomodações (moradia) de outros índios que seguem semelhante linhagem, inclusive havia uma indiazinha quéchua, que falava espanhol além de seu idioma raiz. O mesmo não ocorre com o não-índio, esse pode até ficar alguns dias, mas não pode morar. Apesar disso existe um ritual de batismo, onde o não-indio que é bem recebido e participa ativamente das atividades da comunidade, recebe um nome guarani dado pelo Pajé.
Ainda a respeito das crianças, falávamos sobre o batismo. O Pajé dá o nome guarani de batismo às crianças, dizem que ele conversa com o espírito e o mesmo conta o nome. Um dos índios, Everton (20 anos), disse que seu espírito não falou seu nome, então ele recebeu apenas um nome genérico. Claudio explicou que para os guaranis existem em torno de 6 nomes masculinos e 6 (ou 7) femininos, com variações no final, que complementam o sentido do nome.
Falamos também sobre as questões de saúde pública como o uso de drogas, principalmente o álcool. Alguns índios são alcoólatras em virtude desse contato com os centros urbanos. Contaram o caso de uma morte que ocorreu como resultado dessa problemática. E que essa questão estava trazendo muita infelicidade para a tribo, mas que o problema esta se amenizando agora. Ainda nesse sentido, falamos sobre os postos de saúde. No posto de saúde reivindicado por eles na região, existem alguns médicos que, embora mediquem e tratem das doenças dos pacientes pela medicina ocidental, respeitam a opinião dos pajés nos tratamentos. Os pajés geralmente tratam as doenças de cunho espiritual. Gripes por exemplo, eles mesmos indicam os postos de saúde, dependendo do caso. Há uma harmonia nessa relação. Percebe-se que são um povo acolhedor e da paz, não gostam de conflitos nem de “xeretas”. Em dado momento Claudio fez uma crítica aos seguidores de certas religiões que vão até lá para impor suas crenças e ofendê-los. Ele nos contou um episódio em que um dirigente de uma Igreja o ofendeu chamando aos índios de capeta, pois eles não aceitavam Jesus. Claudio respondeu com humor, que se Jesus tivesse nascido entre guaranis, estaria vivo até hoje.
 
Sobre a atenção da sociedade, falamos sobre o mês de abril, "mês do índio", é o mês em que mais recebem visitas. Ele afirma: “Parece que algumas pessoas só lembram da existência do índio nesse período, ou no dia do índio, e no resto do ano caem no esquecimento.” Inclusive nos informou que o dia 19 de abril não é uma data comemorativa para eles, e que é na verdade uma data de luto, pois muitas vidas de índios foram perdidas.
Claudio reclamou da postura do governo em relação aos índios. Ele diz que é como se o governo achasse que eles não sabem respeitar a natureza, e que são destruidores em virtude de serem conhecidos como nômades. Ele defende dizendo que respeitam muito a natureza e mantém uma relação harmônica com ela, por eles a conhecerem. Também foi falado da falta de matéria prima para a realização de seus instrumentos ritualísticos, de caça e para fazer ferramentas.
A medida de tempo deles funciona da seguinte forma, Ano Novo (equivalente a nossa primavera e verão) e Ano Velho (outono e inverno). Nesses períodos eles alternam as formas de se alimentarem. Em certa época não podem comer peixe e tomar leite, esse é um dos exemplos.
Falamos sobre a questão do lixo e observamos que não é tão distante de nós. Existe certa quantidade de lixo espalhado, principalmente restos de frutas, mas não há excessos e imundice. O Claudio disse que todos são educados desde pequenos para que separem o lixo comum, orgânico e reciclável. A questão está na coleta, que não sabemos se é feita de forma correta pelas empresas coletoras, semelhante problemática que vivemos atualmente na Porta do Sol.
No caminho de volta, trocamos nossas impressões e experiências do que havia sido esse 1° Encontro – uma espécie de Roda de Ética. Ressaltamos também a questão da carência da presença da frente do meio ambiente. Embora o Leo Mussi tenha sido incumbido pelo Thiago França (meio ambiente), para coletar e repassar as informações, como um “suplente”, essa situação ocorreu como exceção. Isso porque a intenção é que todas as frentes estejam presentes nos encontros. Por fim, foi comentado que haveria uma demanda em camisetas para o projeto, e eu, Rafael Camargo me prontifiquei em verificar com um amigo, e depois passar as cotações, para saber a viabilidade.
No desfecho, falamos sobre a criação do blog. Em vista de termos nos comprometido com o edital em criar uma plataforma eletrônica via blog para o registro deste projeto. O blog será aberto aos participantes do projeto para que coloquem material referente ao que tem sido feito e o que o será realizado. No site da Porta teremos um link para esse blog.  Então ao mesmo tempo em que o blog está conectado com a Porta, também servirá como uma espécie de “prestação de contas” do projeto para fora. Além do mais, os índios têm celulares e acesso a internet, então com esse blog poderíamos estreitar ainda mais nossas relações, trabalhando para que haja uma interação não somente nos dias dos encontros, e quem sabe o projeto pode rumar para proporções maiores em próximos editais. Lilian Ganzerla Cardoso se prontificou para fazer o fazer o blog.
Quando estávamos de partida o índio Paulo, que realizou a primeira caminhada do JÁ na Terra Sem Males (Peabiru) há alguns anos atrás, apareceu quase no final da nossa visita, pois estava em outro compromisso. Ele ficou muito feliz em nos ver, e nos saudou. Ao final do encontro presenteou o JÁ com uma linda escultura de madeira feita a mão por ele. No momento da entrega da escultura:
Henrique: - Que legal, é uma ave! Que ave é, um Falcão??
Paulo: - Não! É uma Águia! Símbolo da PERSISTÊNCIA E DA PERSEVERANÇA.
Encerro com a explicação feita pelo Leo Mussi, que explica o significado da águia ser símbolo de persistência e perseverança. “Quando a águia chega a uma certa idade, ela fica com as unhas moles e com o bico curvado, as asas ficam pesadas e as penas velhas, dessa forma já não consegue se alimentar direito. Então ela voa para o alto de uma montanha, faz um ninho, e quebra seu bico batendo na parede. Quando o novo bico nasce ela arranca suas velhas unhas. Quando as unhas novas nascem ela tira as penas velhas. E após isso, o ciclo de renovação da Águia está completo. É um Renascimento, Igual a Fênix.”
Rafa Camargo 21/03/2012